A leitura de histórias no desenvolvimento de competências linguísticas

O deficitário domínio da leitura, traduzido em esforço penoso de decifração, arruína qualquer interesse em viajar pelas páginas de um jornal ou de um livro, e mata o desejo de descobrir e soltar a voz do outro, presa num registo de papel. Aqui se aplica com toda a propriedade o que Stanovich chamou de “o efeito de Mateus”, numa alegoria à parábola dos talentos, e que poderia ser traduzido por “lê mais quem lê melhor e lê melhor quem lê mais”. O ciclo não se estabelece se uma das premissas estiver comprometida, o que significa que nunca seremos consumidores de leitura se não tivermos atingido o grau de fluência, caracterizado pela rapidez de decifração e pela decisão e eficiência na extração do significado.

Os programas de estimulação linguística que têm vindo a ser desenvolvidos têm tido por base a atividade de leitura de histórias e a exploração linguística das mesmas, fundamentalmente ao nível da comunicação oral (compreensão do ouvido, ler e reconto), da monitorização da reflexão linguística (exercícios de paráfrase, antonímia e sinonímia e de manipulação segmental) e da exposição a material escrito (a história lida e o registo escrito de palavras e frases).

Nas últimas décadas tem-se tentado identificar a base linguística subjacente à aprendizagem da leitura. Esta base linguística só se desenvolve e é atualizada quando se usa ativamente a linguagem. O uso ativo da linguagem é promovido quando falamos à criança, deixamos que ela fale, e a fazemos falar e refletir sobre a língua que utiliza. Por outro lado, esta base linguística poderá ser também desenvolvida e atualizada com o acesso à leitura.

Viana (2001) considera que o conhecimento ativo e criador da fonologia, da semântica e da sintaxe apresenta uma evolução espontânea até aos 3 anos de idade e que, a partir dessa idade, o interesse pela linguagem, se se mantém em muitas crianças, estagna noutras. Esta evolução estará, de certo modo, dependente da estimulação (mais ou menos consciente) do meio em que a criança vive. Quando o interesse prossegue, a criança desenvolve uma série de competências que lhe vão abrir o caminho para um fácil acesso à leitura. Quando o interesse não existe ou não é estimulado, o caminho para a leitura tem de ser encontrado essencialmente com a ajuda da escola.

A investigação tem tornado evidente que não basta possuir capacidades funcionais ao nível do uso da linguagem, mas que é também necessário tomar consciência de como a linguagem é, como se estrutura e como se utiliza. São precisamente as atividades metalinguísticas que vão permitir às crianças refletir sobre a linguagem oral e apropriar-se da linguagem escrita.

Aprende-se a falar falando e ouvindo falar. Da mesma forma, aprende-se a ler ouvindo ler e lendo. Como podemos abordar a leitura se a criança ainda não compreendeu que tipo de objeto é o livro, e que o texto transcreve a linguagem? Como podemos ter o desejo de ler se ainda não sabemos o que é? Isto é, se queremos despertar o desejo de ler de forma autónoma, temos que ler para e com as crianças. O primeiro passo será, portanto, ouvir ler. Morais (1994) considera que a leitura de histórias para as crianças desempenha importantes funções ao nível cognitivo, linguístico e afetivo.

Ao escutar histórias de uma forma lúdica, a criança aprende, por exemplo, a definir objetivos e estratégias de compreensão, a organizar sequencialmente o tempo e o espaço, a parafrasear e a compreender e a utilizar figuras de estilo e de sintaxe. Os conhecimentos linguísticos adquiridos ao longo da audição de uma história fornecem à criança uma mais-valia importante, quer para poder lidar com a progressiva complexidade dos textos com que vai sendo confrontada, quer para a escrita dos seus próprios textos.

Ao nível afetivo, Morais (1994) considera que a leitura de histórias em voz alta para a criança, permite descobrir o universo da leitura pela voz, plena de entoação e de significado, mediada através das pessoas em quem confia, de quem gosta e com quem se identifica. Esta atividade é, para este autor, a grande porta para dar gosto às palavras e ao conhecimento.

Assim, a atividade de leitura de histórias em voz alta tem sido o foco de muitos programas de enriquecimento linguístico, tanto mais que se considera que a leitura de histórias em voz alta pode, e deve, fazer parte integrante de qualquer currículo escolar.

 

               Liliana Lucas, Terapeuta da Fala

 

Referências bibliográficas:

Morais , J. (1994). L’Art de Lire. Paris: Editions Odile Jacob.

Viana, F. (2001). Melhor falar para melhor ler. Braga: Centro de Estudos da Criança – Universidade do Minho.

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